Dentro de dois anos os millennials irão representar metade da força de trabalho. A forma como esta geração encara o trabalho está a mudar o paradigma dos escritórios. E tal como noutros aspetos da sua vida, flexibilidade é uma palavra que vale milhões.

São a geração nascida na década de 80. A sua música de infância ecoava desde o grunge de Seattle até ao rap do Bronx. O mundo não acabou em 1999 e, mesmo quando as suas carreiras estavam a dar um salto, aconteceu uma das maiores crises financeiras de que há memória. Naquele momento, perceberam (se é que ainda não tinham percebido) que o futuro só dependia deles. E que o trabalho, como o conheciam até aí, tinha de mudar. A crise económica não afetou só os millennials. Todas as franjas da sociedade procuraram formas disruptivas de inverter um cenário de crise. E o mercado dos escritórios não foi diferente. Com uma geração de novos empresários a trabalhar em cafés ou em casa, era necessário repensar o modelo de escritório. Que teria de ser… flexível.

Os escritórios flexíveis tornaram--se parte integrante de todas as grandes metrópoles. Independentemente da sua escala, que pode ir de uma secretária a milhares de postos de trabalho, são espaços que podem ser arrendados por períodos curtos de tempo (horas, dias ou meses). Entre as várias terminologias encontramos co-working, incubadoras ou aceleradores, que têm entre si objetivos e serviços diferentes. Mas a receita parece ser uma mescla de todos eles. Um híbrido que tem a virtude de unir as caraterísticas de cada modelo para que melhor se adapte às necessidades de inquilinos e proprietários. Ou seja, da oferta e da procura.

 

O que mudou?

Essencialmente três coisas: uma evolução tecnológica sem precedentes, uma economia que precisou de novas ideias para se tornar sustentável, e uma vontade de mudar o futuro, refletida na atitude dos millennials. Nunca o mundo foi tão portátil. E como tal, podemos trabalhar em qualquer latitude. A grande vantagem é que, se um comercial de uma empresa transportadora do Chipre precisar de vir a Lisboa, pode marcar reuniões, ter uma conference call com a sede e voltar a casa antes do fecho do mercado asiático. Tudo graças ao seu membership e à sua app de um co-working, na qual marcou um local para trabalhar, a sua sucursal temporária numa cidade a mais de 5.000 km de distância.

Do mesmo modo que o nosso comercial marcou o seu dia no espaço de co-coworking mais próximo, cerca de 1,7 milhões de pessoas fará o mesmo em 2018, de acordo com o 2018 Global Coworking Survey realizado pela Deskmag. São milhões de pessoas que, se não existisse este tipo de oferta, poderiam ter de recorrer ao wifi de um bar na Baixa para fechar um contrato. Por outro lado, a resposta à crise económica marcou uma mudança radical nas empresas. O crescimento das PMEs foi transversal. Desde 2015, por exemplo em França, as PMEs cresceram 16%. Na Holanda uns incríveis 40%. Os escritórios flexíveis tornaram-se cada vez mais apelativos, com as suas rendas de curto prazo e valores baixos, ao mesmo tempo que dispõem das comodidades de um escritório de uma grande empresa.

Mas a principal razão do sucesso dos escritórios flexíveis diz respeito às escolhas de vida dos millennials. Segundo o relatório da CBRE Live Work Play, 78% considera tão importante o local de trabalho como o empregador, e 69% trocaria outros benefícios, mais tradicionais, por um melhor ambiente de trabalho.

 

Foco na Experiência do Utilizador

Há uma grande expectativa para que o espaço de trabalho seja, hoje, uma experiência. O estudo da CBRE EMEA Occupier Survey 2018, identifica três pilares absolutamente decisivos para uma estratégia imobiliária bem sucedida: tecnologia, flexibilidade e bem-estar. Nesse sentido, e de acordo com esta pesquisa que reuniu empresas do setor financeiro, tecnológico e científico, entre outras, verificou que 80% dos espaços flexíveis têm programas de bem-estar ou planeiam incorporá-los. Do mesmo modo, 56% considera que o foco das tecnologias deve ser o conceito de user experience e 46% considera que os escritórios flexíveis são fundamentais para reter o talento.

Hoje, o foco das empresas é reter e atrair talento e promover inovação. André Almada, Senior Director, Advisory and Transaction Services, Offices, CBRE Portugal, comenta: “Os espaços flexíveis em edifícios de escritórios são cada

vez mais valorizados na medida em que vão ao encontro das novas filosofias de trabalho e, para ocupantes, podem ser financeiramente interessantes, na medida em que apenas utilizam o espaço que necessitam”.

O estudo da CBRE The Flex Revolution adianta que 84% dos proprietários considera que esta mudança veio para ficar. Cristina Arouca, Director, Research, CBRE Portugal, adianta que “o espirito de partilha nas gerações mais novas está bastante incutido e estende-se à forma de trabalhar. Os espaços flexíveis permitem juntar pessoas com diferentes capacidades que desenvolvem negócios distintos, muitas delas empresários a dar os primeiros passos, que conseguem obter benefícios através da partilha de ideias e da complementaridade de conhecimentos. E esta é uma das principais razões pela qual as grandes empresas também estão a optar por este tipo de espaços, nomeadamente para o desenvolvimento de novos projetos: além da flexibilidade de espaço (associada a um menor custo), estão mais próximos de um público mais jovem que é, muitas vezes, o seu alvo, e gozam de um ambiente mais criativo, propício ao desenvolvimento de novos negócios.”

Glossário



 

Serviced Offices

Escritórios geridos diretamente pelo proprietário, ou pelo seu representante, com contratos de arrendamento flexíveis.  Os espaços estão totalmente equipados e a renda inclui despesas comuns e serviços diversos, como receção e amenities.
 

Managed Offices

Escritórios explorados e equipados por um operador especializado, o qual arrenda espaços flexíveis a terceiros e paga ao proprietário uma renda mensal. 
 

Co-Working

Seja num regime de membership ou na ocupação de um posto de trabalho, o espaço de co-working disponibiliza um local que favorece o networking, a colaboração e os negócios entre ocupantes.
 

Aceleradores

São espaços que incorporam programas nos quais as startups trabalham com um grupo de mentores, normalmente com vista a angariar investimento no final do programa.

 

Incubadoras

Semelhantes aos aceleradores, acomodam startups com a diferença que só se dedicam a um determinado setor com o apoio de grandes empresas ou de instituições públicas.