As smart cities são hoje uma realidade. Muito mais do que a tecnologia que as sustém, as cidades do futuro são fruto de uma vontade de mudar, de progredir e fazer face aos desafios que se afiguram no horizonte.

Em 2002, Steven Spielberg convidou 15 especialistas em tecnologia para que, durante três dias, num hotel em Santa Mónica, Califórnia, pensassem como seria o mundo em 2054. Este think tank incluiu o arquiteto Peter Calthorpe, o escritor Douglas Coupland, os cientistas computacionais Neil Gershenfeld e Jaron Lanier, o engenheiro biomédico Shaun Jones, e vários membros da consultora Global Business Network. O objetivo foi criar uma “realidade plausível” para o filme Minority Report, hoje uma obra de culto e uma referência quando se fala em tecnologia que irá influenciar o mundo como o conhecemos. Ecrãs multi-tácteis, scanners de retina, carros autónomos, drones em forma de inseto, reconhecimento gestual, marketing personalizado ou software de prevenção do crime pareciam tecnologias distantes.

No entanto, o futuro concretiza-se todos os dias, e muitas vezes o motor da mudança é a vontade de transformar o que hoje parece ficção científica em tecnologia que se adapta à realidade. 
Segundo dados da CBRE em Future of Retail 2030, a população mundial atingirá a marca dos 8,5 mil milhões nesse ano, por oposição aos 7,6 mil milhões que atualmente existem.

As pessoas consumirão 50% mais alimentos e 30% mais água do que hoje. As cidades serão o refúgio de 70% da população mundial, e uma vez que as metas climáticas não têm sido cumpridas desde 2017, algumas zonas do planeta estarão demasiado poluídas para serem habitadas. Por outro lado, o aumento da população mundial e as alterações climáticas irão forçar a população a repensar os hábitos e estilos de vida.

 

Tecnologia que serve os cidadãos

Em 2011, os investigadores Mark Deakin e Husam Al Weir elencaram uma lista de fatores que contribuem para a definição de uma smart city: a utilização de tecnologias de comunicação e informação (ICT), a sua incorporação no sistema de governo e a aplicação dessa tecnologia num determinado território, no sentido de fomentar a partilha de conhecimento entre os habitantes da cidade. Para que tal seja possível, é necessária uma infraestrutura que receba, analise, interprete e ative respostas em tempo real. A esse volume de dados denomina-se big data, e está intimamente ligado à capacidade de operacionalização dessa informação, ou seja, à Internet of Things (IoT). Esta é a rede que liga todos os sensores existentes no sistema, presentes em aparelhos como smartphones, eletrodomésticos ou num sistema de domótica. O estudo da CBRE Urban Big Data and Real Estate Markets exemplifica como essa relação é tratada. O big data e a IoT permitem que as valências “tradicionais” de uma cidade, o seu governo, educação, saúde, arquitetura e masterplanning, serviços e gestão de recursos se adaptem às reais necessidades dos seus cidadãos.

 

As cidades do futuro, hoje!

Algumas smart cities servem de paradigma para as metrópoles que ainda agora iniciaram o seu caminho para um futuro mais inteligente. Entre elas, Singapura está entre as mais inovadoras.

Desde 2014 que é possível identificar se uma pessoa está a fumar numa zona para não fumadores, ou se alguém está a deitar lixo para o chão. Por outro lado, consegue saber-se o movimento de qualquer veículo que esteja registado no sistema. A maior parte dos dados recolhidos vão para uma plataforma online, denominada Virtual Singapure, que informa, em tempo real, o modo como a cidade está a funcionar.

Na maior cidade dos Emiratos Árabes Unidos, a iniciativa Smart Dubai envolve 50 serviços inteligentes e 22 entidades governamentais. Através da app Dubai Now, quem ultrapassar o limite de velocidade recebe a multa no email e nem precisa de sair da aplicação para efetuar o pagamento. Barcelona é outro caso paradigmático. A cidade vai poupar centenas de milhões de euros em gastos em energia só por ter instalado sistemas de iluminação pública adaptativa, que acende e apaga consoante a atividade ao seu redor. Por outro lado, a cidade dispõe de um sistema de resíduos urbanos equipado com um sistema de vácuo, que leva os resíduos por condutas subterrâneas, minimizando não só a poluição sonora dos carros do lixo como diminui odores e reduz custos.

Em Lisboa, iniciativas como a adoção de contadores de eletricidade inteligentes vão permitir automatizar a gestão da energia, melhorando a qualidade do serviço e a informação disponibilizada aos consumidores, diminuindo custos e aumentando a eficiência energética e a sustentabilidade ambiental. Em termos de mobilidade, a tecnologia de veículos elétricos, como os emov, da PSA, ou as bicicletas elétricas partilhadas da Órbita e da Siemens, são alternativas sustentáveis que têm como objetivo complementar o fomento da utilização de transportes públicos.

Um estudo da Juniper Research concluiu que, até 2021, as cidades vão poupar até 19 mil milhões de dólares ao fazerem a transição para uma smart city. Mas para se poupar dinheiro, é necessário investir.

É expetável que o mercado das smart cities venha a atrair 15 mil milhões de dólares até 2021 apenas em software de tratamento de big data. Cabe agora aos governos, empresas e cidadãos tornarem a sua cidade um lugar melhor e construírem o (nosso) futuro de modo mais inteligente.

 3 VS DO BIG DATA
 Volume
Medido em petabytes ou mais
Velocidade
Dados gerados praticamente em tempo real 
Variedade
Todo o tipo de dados (números, texto, imagens,etc..)